Em uma grande escrivaninha, junto à qual havia um homem sentado e sobre a qual se achavam confundidas várias cartas misturadas e outros papéis, com alguns poucos livros, vivia uma xícara. Era de porcelana, pouco usada, pintada à mão com cores sujas. Prestando especial atenção a ela, percebia-se o aspecto quebrado, alterado, amassado e especialmente bonito.
Bem, havia um copo, também. Decerto era, segundo todas as aparências, o oposto da humilde e doce xícara, mas ainda assim, seu grande amigo. Chegou até a sentir paixão pela porcelana, mas não permitia-se dizer a ela ou aceitar tal coisa. Diriam os grandes psicólogos que se chama orgulho, mas chamaria de mísera coragem.
Ele reluzia. Seu vidro era resistente e por vezes notava sua amiga que, até mesmo aos olhares superficiais, era fraca fisionomicamente.
A Xícara dedicava quase todas as horas de sua pequena vida ao seu dono, o homem que a tirara das prateleiras, que a usara algumas vezes e que, mesmo deixando-a de lado depois com o passar das semanas, nunca a tirara de cima da escrivaninha e, causando excitação interna na Xícara, tirava-lhe o pó, bem como dos livros ao lado dela.
Não havia propósito naquela vida, mas ninguém tocava nesta questão, pois, para objetos, tudo é incrível e leve e, segundo eles próprios, nunca se profetiza o dia em que deixarão de ser o que são, bem como seu destino depois disso. Dizia a porcelana rota que o que mais lhe agradava era o silêncio, quebrado apenas pelo tilintar de copos, xícaras e talheres apertando as mãos uns dos outros, pelo farfalhar da caneta arranhando o papel em branco, pela respiração de Mr. Um – nome que usava para se referir ao humano – à noite. Era entediante para o Copo, na realidade. Ele bocejava, espreguiçava-se (ocioso como de costume) e demonstrava achar-se no mais extremo tédio quando sua exagerada amiga lhe contava o que sentia ou o que pensava. Independente desses pequenos aborrecimentos, sentia-se singularmente à vontade ali, da mesma forma que os outros sentiam-se.
Contudo, houve um dia que espalhou tensão até aos rodapés.
Confirmando a suspeita do Copo de que alguma coisa indecifrável atormentava terrivelmente Mr. Um, o mesmo chegou, bateu a porta com força, com mágoa. Lágrimas rolavam pelas bochechas e ele sentia-se envergonhado consigo mesmo por estar chorando. Sentou no chão, despencando, sendo observado pelos objetos silenciosos, que acordaram, assustados. Apoiou as pernas em alguns jornais que estavam jogados na barafunda do quarto e, não conseguindo relaxar, jogou seu abajur, que próximo dali estava, ao chão, junto com alguns lápis e tintas. Correu apressado para o quarto, trancou-se e não saiu até o sol voltar a aparecer por entre as nuvens, no dia que nasceu.
Nem o Copo, que tanto achava-se esperto e conhecedor da mente humana (principalmente pelo fato de saber ler), lançou uma hipótese sobre o que acontecera, para surpresa do restante. Até teve, uma ou duas idéias vagas, mas não valia a pena compartilhá-las com Xícara, que chorava baixinho. Tola, pensava ele. É coisa de humanos, coisas que não precisamos entender.
- Por que não põe veneno nesse seu buraco e parte de uma vez? - Indagou com ironia à amiga que ainda soluçava. O olhar ofendido o fez acrescentar: - Ora, que bobagem. O problema é seu ou é dele?
- Você não gosta de ninguém, Sr. Copo, como poderia entender?
- Agora você realmente me ofendeu. - Encenou espanto. - E bem que faço. Não sofro, assim. E, aliás, ninguém é o bastante para mim a ponto de pensar em amar. Fico aqui até que tenha que ser transformado em outra coisa e, dessa forma, não sinto dor quando a hora chega.
E a cada dia que se passava, o temperamento geral de Mr. Um alterava-se para pior e, conseqüentemente, as peças que com ele viviam notavam a mudança no caráter e assim, ficavam tão irritadiços e indiferentes aos outros quanto o próprio Mr. Um. Experimentavam, praticamente toda a semana, as brutalidades para com os objetos.
Ele usava desses modos até mesmo com Xícara, que tanto sofria com ele e tentava, em seu próprio silêncio, pedir para que parasse. Mas em vão, pois, como dizem por aí, a filosofia não cuida do espírito da perversidade.
Então, em uma abrasante noite, o Copo entremeceu até a menor de suas composições químicas. Mr. Um chegou novamente em casa tarde da noite, dessa vez embriagado, chutando e chingando alto. Seu olhar irreconhecivelmente malévolo. Em um desses chutes, em meio aos urros, fez estremecer a escrivaninha, levando a Xícara aos ares. Como se o tempo corresse devagar, ela não mais viu nada e estilhaçou-se no chão.
O Copo prendeu a respiração e uma única lágrima caiu no carpete, escorregando ao contrário, pois fora deixado de cabeça para baixo. Só queria que ela fosse reciclada. Era a única coisa que pensava naquele momento.
Era o fim para Mr. Um. Não podia suportar mais a dor da depressão que o corroía dia após dia e agora, matou sem querer, sem nem perceber, inconscientemente, em momento de atrocidade, sua pobre e fraca Xícara. Não notou tal coisa realmente, mas uma parte dentro dele sentiu que havia quebrado uma parte de sua alma, também.
Engatinhou até um canto, sentou em cima dos joelhos e agarrou alguns destroços e jornais que no canto estavam; entre eles, uma moça de cabelos ruivos, com roupas surradas, cujo tecido áspero e mal pintado passava um aspecto sujo para quem olhava. O sorriso apagado manchava os amassados da roupa e o quebrado do coração. Mr. Um abraçou os destroços, susurrou alguma palavra de pesar, puxando um canivete que mantinha no bolso das calças jeans, suspirou com propósito e arranhou a garganta, manchando os jornais e todo o resto. Logo depois deitou-se por cima de tudo e perdeu-se no meio do resto.
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