Na analógica aquele monte de cores que eu nunca mais vi,
aquele oceano de memórias que eu teria esquecido
se não fosse aquele monte de papel fotográfico
amontoado em cima da minha cama.
Uma criança. Sorrindo. Alegre. Chorando. Andando de balanço. Comendo algodão doce. Machucando as pernas. Pulando no colo do pai. Na cadeira de balanço. Vendo televisão. Mostrando a língua pra lente. Baguçando o cabelo. Lendo contos de Grimm. Com sangue nas mãos. No zoológico. Duas crianças. Uma criança. Loira. Magra. Pequena. Na roda-gigante. Indo pra escola. Mergulhando na piscina. Pele vermelha. Areia no cabelo. Num quarto de hotel. Na frente de casa. Pulando corda. Voltando da escola. Ouvindo música com fones de ouvido. Fotografando. Gritando. Crescendo, crescendo. O colorido ficou lá atrás. Não consigo mais lembrar do ano passado. Só do que tem gravado. Não anotei nada sobre o ano passado, ou o retrasado, ou esse ano.
Tá tudo ficando meio apagado. Fico olhando pra o muito antes. Parece que lá atrás o sorvete tinha mais sabor, o sangue era mais vermelho, as flores tinham cheiro. Tá tudo naquele monte de papel fotográfico jogado em cima da minha cama.