Os apartamentos estavam um tanto cheios, e neles o coração da vida batia tão devagar, o relógio soava meia-noite tão depressa que nem dava pra perceber o sol chegando e indo embora conforme os dias iam morrendo. Sempre encontramos disposição pra ouvir os últimos ecos do Bom, do Belo, mesmo que há muito já tenham se dissipado.
Só eu percebi a música parar; talvez fosse o meu tanto a mais de pensamento. Erguia-se um zumzum, rumores se espalhando aos sussurros, não consegui distinguir nada que fizesse sentido no meio daqueles murmúrios que pareciam eternos.
Um clarão rubro, os ouvidos voaram longe, meu anjo. Deixei minha fantasia deitar na beira da praia, permiti o sol de inverno aparecer e tentar aquecer minha pele esquálida. As cores se desfazem em preto e branco. Minha própria risada à meia-voz paira no ar enquanto desaparecem todos os fantasmas que comiam minha carne naqueles apartamentos abarrotados. Sonhos vivem, enaltecem, sobem até a mais alta nota para que eu os ouça com clareza, desfilavam hostes de sonhos à minha frente. Relógio algum quebrou a perfeita falta de repulsa que havia em mim; opressivo e monocórdio, soou longe, falhando na tentativa de me pegar. Era meia-noite novamente, sim, meu anjo, porém o mundo exterior ficava abandonado a seus próprios designos. Nunca me senti tão tranquilo à beira do abismo. O terror não me paralisava mais.
Cada célula do meu corpo nu se chocou na água e quase morreu de curiosidade. A escuridão encheu os meus olhos - ah, escuridão - e flutuei sem me importar em ficar cega, surda, asfixiada, sem poder agir nem pensar quando meu corpo não aguentasse mais explorar as profundezas daquela água tarde tão fria.
Os raios do luar mergulhavam fundo e mesmo assim eu enxergava pouco, por conta da densa névoa que a tudo envolvia por causa do turbilhão que meu corpo causou ao cair na água.
Reflexo sincero no mar, me manteve convicta de que era assim que tinha que ser. Meu olhar fixo no fim, olhos muito abertos, peito buscando ar, manifestando o início do desespero, o relógio comprido me chamou uma última vez, tentando enganar-me: Não tenha pressa, vá embora junto dos planetas, do vento.
Matei o rubor dos seios e da face, com um sorriso duradouro nos lábios.
- Você não sorri jamais. - Disse o relógio.
Não sorri jamais.
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