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Passado e presente

De certo modo, sinto tua falta. Tua impulsividade, a forma como ria das coisas o tempo todo, inclusive do teu próprio declínio, a forma como caminhava pelas ruas sem preocupação alguma, tua total falta de noções sobre moral ou conduta. Tua conduta era o ódio. Tua moral era a falta da própria. Tu não parava, mesmo caindo, não olhava para trás, limpava o sangue do chão e seguia em frente. Fechava a porta da frente e entrava pela janela. Fazia tudo às avessas.
Era direta, era avulsa, era esperta. Era levada, não tinha nojo de nada. Amava destruição, falava dor e cuspia álcool. Esfumaçava os olhos com cores escuras, ouvia músicas que faziam o desejo da morte pincelar teu coração. Não possuia ninguém, ninguém te possuia. Ninguém te dava ouvidos e tu não dava ouvidos a ninguém. A colisão da tua repulsa ao mundo contra os deveres que tinha com o mesmo causava catástrofe e tu sentias paixão quase doentia por ela.
Era bela, indócil, volátil. Mentia e desmentia. Estava perdida numa era vazia, mas fingia saber tudo e não deixava passar nada. Fingia intensa frieza, mas teu coração lutava para permanecer aquecido. Teus passos eram largos, tua verdade era mentira e tua mentira era verdade. Teu sorriso era de porcelana, tua raiva era eterna. Tinha descaso com todos, não dava a mínima. Queria fazer tudo por ti mesma, corria atrás, se assim desejasse. Se não, dava-lhe os ombros, cruzava as pernas e acendia um cigarro.
Caía em sequência, mês após mês, não sabia do que precisava ou se realmente precisava de alguma coisa. Tua arte era citar frases, meio metáfora, meio literal, ficando em cima da gangorra da tua vida, esperando despencar para algum dos lados.
De alguns de teus aspectos, sinto imensa saudades. É uma pena que tua doença e teu espírito tão cedo negro tenha te levado tão para baixo. É uma pena que não conseguiste moldar tua forma ao mundo. É uma pena que lamente tudo o que fez ou foi. É uma pena que eu tenha precisado te demolir e mesmo assim saber que em algum lugar em mim tu ainda existes e que tenho que te conter, todos os dias, e usar a tua força em meu favor, porque tu, crua como tu és, jamais nos permitiria coexistir em um mesmo corpo, em uma mesma consciência, em um mesmo orgulho. Meu orgulho é maior que o teu e é graças a ele que te contenho, que te prendo, que uso só o que há de bom em ti e o que não é, acorrento e liberto somente no meu íntimo, em solitude e calmaria, pacifica e silenciosamente.