Alma esquecida em algum cruzamento por aí e já não me reconheço mais. Tristeza ainda não assinou os papéis do divórcio. Minha voz é abafada pelos antidepressivos, tragada pela garganta alheia. Sentir a dor a manda embora depressa, porém não a sinto mais. Ela está exausta, repousando em recanto silencioso, me deixando sem auxílio, sem senti-la, sem ouvi-la. Não sinto mais nada. Drogados não são felizes. E os não-drogados, o são? Ambos são miseráveis, com distintos motivos e fugas. Não ligo em perder meus olhos e ouvidos, contanto que não perca meu espírito, seja doente, seja são. Desisto de encontrar lucidez num mundo de pesada e intensa paranóia. Encontrar alguém; me perdi. Alguém com cores suaves e que tenha algo a mais para dizer, que divida os lençóis comigo nos dias difíceis, alguém fugaz, fugitivo, mas ciente de si. Que me retire do transe existencial em que existo. Acorde-me, me tire da cama e me obrigue a tomar decisões ao invés de álcool. Sair dessa visão câmera lenta, sentir novamente a velocidade do vento, os pés presos à terra, a consciência leve e livre de amarras que ela mesma põe, leve e livre para ser o que quiser, para voltar a ser alguma coisa.