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Mais uma vez, observei do alto, como uma alma que de seu corpo se liberta, o semblante embriagado admirando com olhar cru o céu imponente salpicado de estrelas. Era frágil o que eu via, um amontoado de vitrais quebradiços amontoados por necessidade. Era triste. Sentia frio, pude notar. Tremia naquela areia de praia com cheiro de madrugada. Parecia flutuar numa inércia e apatia que supera nossas capacidades humanas de compreensão. 
Vi pulmões cansados, fígado e joelhos gastos, olhos sem lascívia alguma, mas também nada de muito bom. Vi cansaço, tanto cansaço que por um momento fadiguei-me a observá-la. Os braços e pernas atirados ao lado do tronco remeteram-me ao total descaso com o universo. Os cabelos dançavam pelo rosto conforme o vento desejava, numa dança lenta, suave que trespassou meu peito. 
Era belo, era só; só naquele universo ausente de cuidado e proteção. Há muito pensava em não ser mais nada, pois se tornar alguma coisa pesava aos ombros, era lento e fatigava. Pude sentir a textura dos joelhos cansados de correr. No suspiro que deu ao repousas as mãos atrás da cabeça, degustei das reminiscências que pesavam naquele cérebro borbulhante. Seu semblante, que aparenta uma neutralidade invejável a aparentemente eterna, engana os desavisados.
 Não digam que não avisei sobre os livros e músicas de domingo. Aconselhei que a figura contemplativa logo ali embaixo largasse seu orgulho, libertasse alguns segredos obscuros sobre sua natureza, que permitisse uma verdadeira aproximação com outras pessoas. Aconselhei, meus caros, aconselhei. Tanto lhe disse. Tanto ouviu, tão pouco aprendeu. Preferiu fingir a viver e se entregar somente nestes momentos de calmaria, onde as vozes silenciam, inclusive a sua própria. 
No desenrolar destas palavras, me vi ali, resplandecendo o ímpeto de não me sentir apenas mais uma existência vazia, mas sem armas ou forças para lutar. Era eu, todo eu, um anjo caído, sujeitando-me ao mundo e ao nada que ele pode oferecer. 
As pinturas no horizonte começaram a surgir. Levantei e molhei meus cílios naquela água fria da manhã de inverno, deixando todo o resto na beira da praia. Já era hora.




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