Em tuas asas quentes eu nasci e me protegendo das correntes frias de ar, elas abraçaram e pouparam minha pele, mantiveram-me no silêncio, sem crueldade; quietas asas a me acalmar no parapeito do prédio, impedindo coisas sólidas de ferirem minha carne tão cedo faminta de cicatrizes.
Susto! Triunfantes, elas repicaram meu rosto no reflexo dos astros imortais e sorrindo, deixaram meu corpo nu se molhar na chuva. Estou presa em espaços assimétricos, pois o espaço conhecido entre tuas asas também o era. Vês! Aumentaram os metros e também o desequilíbrio, o desengano, a falta de ar, a distância.
Não nasci: Me acumulei num espaço pequeno demais
Belo alado!, me manteve num espaço plano e também sujo, escorregadio, inconsistente, fractal. E agora que me soltaste, que abriste tuas asas, só te resta por mim a compaixão. Eu, um dia resguardado embaixo da asa, coberto por maciez, queimei e manchei a pele limpa no primeiro choque com a luz, com a acidez árdua do mundo, mergulhada na água suja da existência. Desprezou tudo em mim, ao me trancafiar junto ao teu peito; tomou meus olhos, estuprou minhas virtudes mal formadas. Choremos sem vergonha, sem sentimento; caio nessa poça de sangue rubro e veneno. Sorria minha desgraça, já que contigo não posso mais voltar e deitar tranquilo nas tuas longas asas. Afogo-me inerte em meu próprio vômito enquanto esqueço do afeto que deste para esse corpo antes ardente, agora sem nada, sozinho, sem abraço, sem traço, velho, enrugado, submetido, morto. Encolhido num caixão branco cuja cor é escolhida em tua memória, belo anjo, que um dia me protegeu e agora só me assiste virar cinza.