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a adolescência nos traz dúvidas indie

Assim como o lago de Vivaldi, vou congelando aos poucos. E minha garganta se abre num grito silencioso, seco e velado pela raiva. Meu riso é jovial; as mãos, macias; o espírito, velho e áspero.
Lembro da minha vida antes. Será possível que a garotinha loira e sorridente com uma câmera fotográfica na mão, criada a tantos cuidados e ternura, com vida calma e singela, tenha se tornado essa de agora, com cabelos escuros e cigarro entre os dedos? Talvez quando nasci já tinha entranhado em mim os fios escuros de cabelo, a genética maliciosa, o glamour de saber ser humano e não gostar. Fiquei assim ou sempre o fui? Tendo me transformado, é possível mudar. Mas por que tão difícil? Sendo desde sempre, é como nadar contra a maré.
Corro porque andar não tem mais graça. Choro e os outros dançam. Espero que o Deus venha, entretanto ele nunca chega, me deixando desesperançada. Tenho amor dentro de mim, mas não sei usar.
Por aí, quando tu sái na rua, pode ver: em bar chinelo de esquina, um pedófilo impressionando garotinhas, dando um pileque, uma droguinha. Todos fingem que sabem exatamente o que estão fazendo, o por quê, até quando e que podem parar quando desejarem. Supostamente negar os fatos é sinônimo de grandeza, de força. Se esconder atrás de uma faculdade, de um emprego bem remunerado e que gera boa reputação. Mas no final de semana lá estão eles, impressionando garotinhas, dando um pileque, uma droguinha. Garotinhas querendo crescer rápido demais e eles, voltar no tempo. Quem liga se você age feito idiota, se tem emprego e estuda? Afinal, faz bem à sociedade. Só não faz bem aos filhos dela.
Ninguém tá preocupado. O mundo é livre, o riso é solto, quem se importa com o que rola dentro desse submundo? O telefone tá ligado e a gente fala pros nossos pais que "tá tudo certo" e na verdade tá todo mundo um lixo. Dentro da noite, a tristeza bate, e vem o choro, o desespero, as pessoas se entregam à miséria, aceitam o fato de que não estão bem; tão logo o efeito da bira vai embora, a armadura se enrijece e tudo aquilo foi apenas efeito na bebida, nada sério.
Um dia cheguei a acreditar que tudo era pra sempre e que toda a dor pudesse ser morta com mais dor. Tão fácil deixar tudo como está, fingir que nada aconteceu, que não tem nada acontecendo. Talvez seja. Mas eu já provei dela e posso dizer que é indiscutivelmente fácil mantê-la. Difícil é tentar algo diferente. É fugir das sombras dos postes da rua pela madrugada, é ir embora disso tudo, é resistir à tentação.
Não digo que consigo. Anteriormente escrevi: Não sei se é minha natureza. Não sei qual é meu caráter, minhas forças, minhas fraquezas, não sei o que quero da vida. O máximo que posso fazer é me quesitonar e ouvir Cássia Eller, com esse cigarro me confrontando a cada vez que o acendo.