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viajo, me insignifico e resignifico

Passei 1/3 da minha vida viajando entre essas cidades pequenas do meu Estado. Se não houvesse um motivo, ele era criado. Por mais sono que eu tenha, não consigo dormir quando subo num ônibus. Tenho medo de perder alguma coisa que passa correndo pela janela. Conheci algumas pessoas, conversava como se as conhecesse desde sempre; mas a melhor viagem é aquela à noite, com as estrelas salpicando rostos, iluminando o pico das montanhas, luzes internas apagadas, pessoas dormindo, o vento frio entrando pela fresta e enrubescendo as bochechas. O som se restringe ao das rodas no asfalto, o movimento das árvores.
Dessa última vez, estive observando a eminência do céu, a forma como ele quase zomba de nós, seres humanos. Já tentei ser como ele; superior, notável. Quis ser vista. Nossa destruição não é muito além do que a vontade de ser alguém.
Na casa das estrelas não existe cegueira, não existe mentira, ou medo de ser o que é. É e pronto, quieto e sem perturbação, faça dia ou noite. Queremos ser de verdade. Somos apenas pessoas com medo de viver sem certezas; invejando a majestade, que aparentemente é imortal.
Em comportamentos doentes, sofremos, pois lembramos dele e sua simplicidade de ser somente o que é, sem esforço, e ainda assim ser estudado e admirado por todos e qualquer um. A volubilidade não satisfaz, revolta. E ele permanece silencioso, imutável, em estabilidade inalcançável que nos faz virarmos monstros à procura da santidade que ele emana.
Viajar é quando ninguém me perturba além dos meus pensamentos. Ao invés de procurar me espelhar na imensidão dos céus, acabo aceitando que sou só uma vida, às vezes nervosa, às vezes adormecida, que quer ser notada, que quer ser de verdade, mas que pode fazer isso sem esquecer que como durante as viagens, são momentos que oferecem a oportunidade de escolha e que elas não são supremas, inatingíveis, são somente o curso de uma vida que passa quase tão depressa quanto essas viagens interestaduais. Não quero ser demais, só quero ser. Deixo a maestria para o que não é humano e que pode ser admirado com um levantar de olhos.




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