Fitava meus pés com olhos semi cerrados. Os meus pés. Estava na torre de controle de minha vida e nada me atingiria; minha armadura drogada de mágoa me protegia contra os raios que saiam dos olhos alheios e não tinha medo de cair. Ninguém via cá dentro, nem mesmo eu que, inebriada em meu casulo de tanta auto-confiança, não enxergava nada além da aparente invencibilidade.
As árvores cresciam na velocidade em que eu desejava, as águas corriam no meu sentido e os pássaros tocavam as minhas notas. Dançava meu corpo, já esquecido da alminha enclausurada em algum lugar do peito. Num simples correr de ponteiros eu ia vivendo, por dias, semanas, esquecida daquilo tudo que me mergulhava de cabeça para baixo na água fria do crepúsculo.
Pois aconteceu que numa dessas tardes um pouco deprimentes que encontramos pelo caminho, vi algo que me petrificou. Um par de olhos ao qual não estava imune. Ele me viu e eu o vi. Vi neles o castanho dos meus. Pareciam olhos nascidos em outra década, olhos cansados e vagos, olhos que viveram outra vida que não a minha e ainda assim, idênticos aos meus. Foi como mergulhar na junção de cores escuras daqueles olhos tristemente convidativos e me perder dentro da alma que há pouco não me dizia respeito algum. Me despi diante do apelo que me fizeram e as linhas paralelas de minha íris se tornaram de repente linhas de um livro, prontas para serem lidas por aqueles olhos e mais ninguém. Crucifiquei meu coração e gritei que o faria de novo. Todas as minhas veias vibraram e aqueles olhos não saiam de cima de mim, me julgando, me amando, me matando.
Minhas mãos tremiam, meu estômago embrulhava e a náusea que se apoderou de mim fez meu corpo se curvar diante daquele par de olhos ferinos. O movimento seguinte envolveu meu punho de encontro ao espelho, estilhacei os cacos da minha alma naquele mesmo instante, mas a náusea não passou. Essa não sou eu, não pode ser eu, balbuciava eu repetidamente diante da visão fragmentada daqueles olhos agora distribuídos no ladrilho do banheiro. Tarde demais: me vi. E possuía uma alma que a partir de então me foi impossível negar.
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