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os tempos difíceis

Já faz algumas horas desde que meu pé pisou pra fora do abismo, mas ele veio comigo. Olhei demais pra ele e acabei sendo engolida. Sou ele, me tornei. Permiti. As forças pra sair dele acabo usando pra sobreviver da forma como dá e isso consiste em alguns planos fortuitos usados como desculpa pra não encarar essa cura dolorosa que é a de enxergar a verdade, a verdade de quem eu sou. 
Nesse estado de semi-vida me vejo caminhando pela rua como um fantasma, superficialmente observando a paisagem pela qual meus pés caminham. Chego em casa com um maço de cigarros, mas não lembro de tê-los comprado. Alguém foi em meu lugar. Alguém que não me carregava consigo. 
O peito do meu amante se desdobra em tentativas infindáveis de me gerar conforto e o emaranhado de seu cabelo exala a tentativa de me amar, coisa que não acredito que se consumará. No cheiro daquela pele eu quero gritar as verdades que me amarram a garganta, quero chorar, não quero falar, quero chorar a compreensão que nunca chegará, chorar a minha subversão que só me levou à loucura. Abraço nenhum me gera conforto, estou agarrada às minhas sombras, que gritam cá dentro, dissimulam a realidade e fogem dos preceitos que a vida põe boca pra fora. 
No fundo espero que uma luz branca chegue e me carregue pra longe do inferno que se tornou viver sendo quem sou; temo que ela nunca chegará, pois a distância é grande e a vida é curta demais: não vai dar tempo. Carrego comigo os medos da humanidade, numa hora sou um anjo vivendo entre demônios; noutra, um demônio envolto em anjos. Sou um monstro postiço que brinca com meu íntimo. Sou o anjo caído dentro do meu peito. Sou a infanta sem direito à coroa, presa num quarto escuro de quatro paredes sem saída, onde tudo é solidão e lamúria, o acaso não estende os braços e eu só procuro abrigo e proteção. 
Não quero ser a vítima, porém algo me submerge todas as vezes, absolutamente todas em que tento sair de dentro da água fria que comprime e congela meus órgãos. Os comprimidos não vão me curar daquilo que eu sou. Mas estou disposta a tentar de novo e de novo até o dia em que consiga ou que simplesmente me resigne a ser isso e muito mais, a ser a voz que grita debaixo da minha pele, o cativeiro de minha alma revolta. 

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