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urbano

A nossa forma de viver não é mais humana. É aço. É poeira. É poluição. Nós somos as partículas de poeira lutando para sobreviver num labirinto que nós próprios construímos. Só sei meu próprio nome porque me contaram, não porque sei quem sou. 
Sinto uma asfixia, uma mão apertando minha garganta, pressionando; ela se transforma numa crise de pânico, numa fobia social, num medo de viver, numa procura por terapia, num pai que vê a TV e não os filhos, num amigo que não ouve o outro porque o telefone apita a cada 2 segundos. A mão é a forma física do medo projetado pelos prédios, pelo concreto cinza que cobre o céu e assenta as árvores, que interrompe o fluxo das águas. 
Tenho sim, medo. Um medo tristonho, pois é consciente; sei do que é e os motivos pelo qual ele se manifesta. Ele vem no perceber da vulnerabilidade e desimportância que a própria vida que o originou carrega. Ele vem apertando o coração, descendo frio o suor pelas costas, acelerando o passo, quando alguém se aproxima pelas minhas costas, alguém que pode me fazer mal, alguém que vai me machucar. Não sei quem é esse alguém, mas com certeza não é um semelhante, é um monstro, um bicho ou uma máquina. 
O medo vem também depois, ao chegar em casa. Mesmo com alívio no peito por estar a salvo, ele vem com tristeza, porque percebe a cama vazia, a casa repleta de sons e dizeres do dia-a-dia, mas oca de amor. Vem ao perceber a distância imensa que me separa do próximo - que não é mais tão próximo, se é que algum dia foi; vem ao constatar que não, não é mais possível chorar no colo de um amigo, que o choro tem que ser quieto, para não acordar os vizinhos, para não te acharem fraco, incapaz de lidar com o nosso magnífico mundo novo. 
E no dia posterior, novamente o medo, pois tão constante se apresenta, que transmuta-se em paranoia e aí no medo do delírio, o medo de enlouquecer e pior: de ninguém perceber ou se importar. O medo do que o próprio medo pode me trazer a médios e longos prazos.
Esse medo é ruim porque é triste, carrega consigo algumas resoluções filosóficas que concluem: o tipo de ameaça das quais se tem medo evoluíram acima da capacidade humana de sobreviver a elas. É triste porque nós criamos e estamos morrendo nas mãos de nossa criação. É triste porque ou se sucumbe ou se mistura ao aço.  





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