Me distraio com alguma notícia na internet, alguma conversa jogada fora, os clientes no trabalho, aquela coisa de sempre; chego em casa e me deparo com uma rosa em cima da cama e lembro que é a rosa que simboliza a tua morte. Olho pra ela e sinto saudades, um gosto amargo na garganta; tô tentando de alguma forma assimilar de verdade que tu morreu, que tu tá a 7 palmos abaixo, que os vermes já comeram todo o teu corpo, que todo aquele sorriso desapareceu no espaço e nunca mais vai voltar. Imagino a cena exatamente como me descreveram: tu chegando no hospital politraumático, mas ainda assim dizendo o teu nome completo e tua idade. Tu não entendeu muito bem e nunca vou saber se tu viu a vida toda passando diante dos teus olhos, se sentiu medo, se os diversos ossos fraturados te doeram muito ou se nem deu tempo de nada. Imagino as enfermeiras, os médicos tentando te salvar, se tu foi só mais um no IML, se alguém pensou na tua vida que em menos de uma hora tava toda estendida naquela maca suja de sangue. Será que deu tempo de tu pensar na gente? No nosso quase-filho? Nas nossas diversas quase-mortes e nas diversas vidas que levamos? Onde eu tava enquanto tudo isso acontecia? Onde tava o meu pensamento enquanto tu morria? Já faz mais de um mês e tento remontar cada passo que eu não vivi da tua morte pra de alguma forma conseguir aceitar, conseguir engolir, digerir, superar... Superar eu acho que nunca.
Tantos planos retardados por uma morte que veio do nada, uma fatalidade bruta, o teu anjo que veio cedo demais.
Tenho a maior certeza do mundo que tu foi a pessoa que mais me amou no mundo ao lado da minha mãe; me dói saber disso agora, me dói saber disso agora sabendo que no passado não reconheci, não dei valor, não dei bola. Depois da tua partida, comecei a rever a minha vida, e são tantos os arrependimentos, são tantas as dores; eu sou uma velha confusa num corpo jovem.
Ela deve estar sofrendo demais também. É revoltante; uma revolta que se dirige ao universo, à sabe-se lá o quê. Só sei que é uma revolta muito, muito grande. Meus pulmões tremem a cada tragada no cigarro: Lembro do nosso discurso de não parar de fumar por fazermos o que gostamos. A cada música que eu ouço, cada tragada, cada segundo viva eu sinto em dobro, por saber que tu nunca mais vai poder sentir.
Me sinto sozinha nessa dor, por sofrer por nossos segredos de amor, mas então me sinto egoísta por estar preocupada com minha dor e menos com a tua, que jamais vai poder ser sentida novamente. Antes uma dor solitária do que uma dor não sentida...?
Não tenho certeza sobre a resposta. Gostaria tanto que tu estivesse aqui pra eu te contar as coisas, pra tomarmos aquele café, pra vivermos um pouco mais juntos. O teu comentário aqui no blogger tá aguardando moderação; me desculpa por te deixar aguardando moderação por todo o tempo durante a tua vida. Eu grito, "não vá e me deixe, não me deixe cega, não se vá assim, você não acredita em mim, mas faz isso o tempo todo".
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